Do Lixo ao Luxo!

junho 08, 2022

Do Lixo ao Luxo!

No início de Maio, a casa de moda Balenciaga apresentou este par de sapatilhas bizarramente destruídas que já fazem parte de um dos “mandamentos” da moda que é dar que falar!
Isto foi sem dúvida mais uma grande estratégia de marketing do seu diretor criativo Demna Gvasalia que nos tem vindo a habituar a estas peculiaridades. Trata-se de provocar um “gatilho mental” que nos incita à procura do produto e como consequência leva à evolução da marca.
Tudo isto provocou um alvoroço no público e subsequentemente despertou um interesse inusitado na procura dos bens da marca.
Marketing no seu melhor! 
 
Denma Gvasalia como refugiado da guerra civil da Geórgia teve de encontrar beleza  naquilo que via, que era um manifesto clima de destruição e  isso fez com que começasse a desconstruir a beleza apresentada nas grande passarelas e  criasse um conceito mais desleixado e arruinado onde ele via “o belo”. 
Esta atitude mais que um conceito agregou  positividade na difusão da marca.
E diz o povo que é sábio ''Falem bem ou mal, mas falem de mim!''. Porque “o falar”, esmiuça a curiosidade e leva a desenvolver novas vagas de arte, neste caso na moda.
 
As tendências desenvolvem  no público a vontade de serem únicos de terem objetos exclusivos ou de terem acesso a séries restritas. Estas tendências são criticadas, adoradas e/ou ignoradas. De todo em todo são um dos maiores acréscimos para o desenvolvimento e êxito de uma marca.
Alguns anos atrás e em todas as formas de arte consagraram-se artistas pelo uso de estratégias inóspitas e peculiares que fomentaram a criação.
Apresentavam às vezes, de forma atrevida outras vezes irónica, peças que aguçavam a vaidade de as ter e de se tornarem portadores de artigos exclusivos ou quase únicos, tal a restrita emissão das mesmas.
Isto fez-me recordar quando a Madonna apareceu e rapidamente se tornou num ícone da música e da moda.
Pela sua irreverência e “despudor” quer na sua apresentação quer nos temas polémicos e provocatórios que escolhia, fez dela, através do enorme impacto que teve na cultura no mundo, “Rainha do Pop”.
Madonna é conhecida pela sua contínua reinvenção e versatilidade na produção musical, composição apresentação visual. 
Ultrapassou os limites da expressão artística na música e fez moda que gerou a aclamação, por um lado e controvérsia e críticas, por outro. Mais uma vez o marketing no seu melhor.
 
Mas a força poderosa no mundo criativo deve-se a muitos aspetos:
-No caso de Denma Gsvalia, como já falámos, pela vivência da guerra sentiu necessidade de apurar o belo na destruição, forma eclética de belo e sustentabilidade ambiental. No entanto, ambos os procedimentos levaram sem dúvida a uma agitação no mundo das artes, tendo como consequência abrir novos caminhos e novas tendências.
O agitar das águas produz uma poderosa força criativa no mundo e ainda uma inesperada apreciação com um olhar renascido. 
Dentro destas novas concepções sustentadas pela “inversão do luxo” persiste agora uma nova preocupação, a sustentabilidade.
 
-No caso de Bordalo II, artista plástico português, utiliza como matéria prima desperdícios e lixo e transforma-o em “obras-primas”, surpreendendo com as suas grandes esculturas. Um dos exemplos que já conquistaram várias cidades no mundo é a série “Big Trash Animals”, feita de pneus, pára-choques e outros entulhos.
 
-Deniz Sagdic, de origem turca, cria obras que parecem pinturas a óleo, usando sempre resíduos descartáveis vítimas do abandono, desde jeans, botões, embalagens plásticas etc. 
 
Há quem veja nestes artistas uma coragem infinita e um encorajamento desmesurado para o uso, dos lixos e desperdícios, como a “nova matéria prima.
 
E é aqui que “a star is born”
Desconstruir o destruído, elevando-o a um estatuto de extravagância e beleza.
 
Falar de sustentabilidade é obrigatório, mas que é difícil criar uma moda, que é disso que este blog trata, 100% sustentável, é!
Claro que qualquer percentagem que atenue a pegada ambiental é melhor do que nada e estas ações de divulgação, com certeza que ajudam a melhorar a qualidade de vida do planeta.
 
Já lá vão os anos em que todos os trapinhos eram aproveitados e reciclados. 
As aldeias mais distantes das grandes cidades eram quase um feliz exemplo de como recuperar, recriar e não desperdiçar. Ficavam em sítios tão distantes  que as novidades levavam anos a chegar lá. 
Um exemplo disso é como tudo era aproveitado. 
Quer na alimentação, cujas sobras ou iam para o gado ou para fertilizar a terra, quer com as roupas que eram usadas até ao ”último suspiro”. As que ainda estavam com alguma possibilidade de serem recuperadas não eram enterradas mas reaproveitadas para fazer sacos do pão, toalhas, roupas para os mais novos, panos de chão, panos de cozinha, aventais, ….uma parafernália de coisas que na cidade já não se usavam uma vez que os grandes mercados as vendiam todas novas, todas giras e com novidades técnicas que lhe davam um uso mais eficiente. Não era assim necessário esgaçar panos, co-los, rematá-los e dar-lhes uma nova vida. Tudo já aparecia nas grandes superfícies com novas tecnologias que os tornavam mais eficazes.
 
Lembro-me que nas aldeias em Trás-os-Montesqualquer retalho era cortado em fitas e ou no tear ou à mão nasciam tapetes, albardas, chapéus, mantas, ….até brinquedos.
As bonecas de pano “sustentáveis”  ainda hoje fazem as delícias de qualquer criança.
Aos sapatos, quando perdiam o tamanho, cortava-se a biqueira e viravam umas “sandálias”. Mandavam-se para o sapateiro e com umas capas e solas novas e uma esfregadela com graxa, ficavam a brilhar.
Nada se desperdiçava.
 
Mas com a revolução industrial tudo mudou.
Máquinas nasceram para substituir o trabalho humano e libertar um pouco a árdua vida que se vivia. Aos poucos, com estes artefactos o homem começou a desenvolver indústrias e a consciência comercial e competitiva instalou-se.
Mas não há bela sem senão e é agora que estamos a pagar a factura por sermos responsáveis pelas “viroses” do ambiente.
 
Com o acelerado desenvolvimento do século XX e suas enormes descobertas científicas e tecnológicas, quer a indústria quer o comércio transformaram-se de forma incrível e aumentaram a produtividade desmesuradamente.
Todas essas benesses alteraram de forma radical a vida das pessoas e deparamo-nos com um mundo frenético, altamente competitivo e repleto de pessoas aceleradas.
 
Mas, para mim, o maior pilar da sustentabilidade é a cultura. Só com muita informação se poderá vir a modificar mentalidades.
 
O mercado de moda é caracterizado pelo curto círculo de vida dos artigos. A cada estação têm de ser apresentadas milhares de propostas pois a motivação do fast fashion é enorme.
 
É assim fundamental mudar a mentalidade dos consumidores, fazê-los compreender que terão de adoptar uma consciência mais ambiental e despertar neles a necessidade  de valorizar o fabrico menos poluente. 
 
Tomar atitudes importantes como comprar menos e investir em peças mais duradouras, consertar peças danificadas, doar e trocar  ou compartilhar e customizar, são princípios que devem ser enraizados no nosso comportamento.
Com tudo isto é crucial que as práticas dos consumidores se ajustem aos actuais compromissos ambientais. 
Não é fácil já que a oferta é enorme e provoca neles o desejo da compra sem critério. “O desejo leva à compra desenfreada de peças que por vezes nunca chegaram a sair da embalagem. Muitas vezes têm de enfrentar o conflito interno entre o desejo, provocado pelas mudanças rápidas das tendências e a diminuição do poder de compra.
Por isso, acredito que é na educação e na cultura que se irá conseguir mudar hábitos anciãos. Acredito que, se tomarmos consciência da urgência de reciclarmos, damos tempo ao planeta de se reflorestar.
A reciclagem é a pílula para a sustentabilidade.
 
Na semana de moda de alta costura de Paris nomes como Ronald van der Kamp, Victor & Rolf, Maison Margiela e outros, apresentaram coleções de materiais 100% sustentáveis e, para além de recuperaram roupas de coleções antigas, exibiram peças feitas com restos de stocks.
Victor & Rolf com estas apresentações enalteceram a ideia de que crises de escassez de materiais provocam a inovação e a criatividade.
Maison Margiela e Jonh Galliano, com a eloquente mestria na execução, recuperaram e exibiram clássicos do guarda-roupa usando retalhos e materiais em 2ª mão com a intenção de dar um novo significado às peças.
Já Martin Margiela, o rei do desconstrutivismo desmontava peças de roupas para depois reconstruí-las, aumentando suas proporções e fascinando e afirmando uma nova tendência.

Esta é para já uma mostra de vários caminhos a seguir mas há muito ainda a fazer, estudar, educar e especialmente consciencializar as pessoas de que o planeta está seriamente doente e que se já se encontraram algumas soluções para a cura, o certo é que a cura depende da contribuição de todos nós. 

A ciência e tecnologia representam um papel preponderante mas se não tiverem seguidores nunca conseguirão concretizar o objetivo.

A sustentabilidade precisa de crescer no coração, passar para o cérebro e só depois deverá ser transformada conscientemente em negócio.

 

Maria Pia


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